Repensando o dito, eu diria que “os piores cegos são aqueles que não querem ver e também aqueles que acham que podem ver tudo!”. De fato, a cegueira é algo bastante relativo. Do mesmo modo que a visão. O meu mundo se constitui pelo que eu vejo (e não vejo) assim como o universo do outro se constitui por aquilo que ele vê (e não vê). Há aqueles que possuem um olhar panorâmico e aqueles que enxergam apenas um palmo além do seu nariz. Há aqueles que veem em plongé e outros em contra-plongé. Aqueles que buscam enxergar a partir da perspectiva do Outro e aqueles que miram apenas o próprio umbigo. Há aqueles que veem a vida pela TV e aqueles que a veem a partir das ruas, das cidades, dos Estados, do Mundo.
Eu particularmente, do meu ponto de vista (que é limitado/condicionado pela minha história, minha formação, minha condição social, meu gênero, minha geografia...), vejo um cenário complexo de difícil compreensão na atual conjuntura brasileira. Nada me parece óbvio como se estivesse explícito diante de mim e que necessitasse apenas de um ajuste de foco para materializar “a imagem do real”. Ao contrário, as geometrias são irregulares e disformes, como uma pintura do Pollock. Entretanto, para que a realidade não se torne obtusa demais, vamos criando pontos nessa tela brasileira e, na medida que nossos olhos captam e decodificam a luz, vamos traçando novas geometrias com novas cores.
Sem dúvida, como você bem disse, a nossa bandeira é verde, amarela, azul e branca. O verde simboliza as matas (que vêm sido depredadas e destruídas em nome do capital em detrimento da população indígena); o amarelo simboliza as riquezas do país (que há muito tempo têm saído para fora dele e que, as que aqui estão, se mantêm na mão de poucos); o azul representa o céu e os rios brasileiros (ambos intoxicados pela poluição das indústrias e [sa]marcadas pela mineração irresponsável); e finalmente o branco que significa o desejo pela Paz (que atualmente parece estar em um nível utópico). Eu particularmente, do meu ponto de vista (que é limitado/condicionado pela minha história, minha formação, minha condição social, meu gênero, minha geografia...), vejo um cenário complexo de difícil compreensão na atual conjuntura brasileira. Nada me parece óbvio como se estivesse explícito diante de mim e que necessitasse apenas de um ajuste de foco para materializar “a imagem do real”. Ao contrário, as geometrias são irregulares e disformes, como uma pintura do Pollock. Entretanto, para que a realidade não se torne obtusa demais, vamos criando pontos nessa tela brasileira e, na medida que nossos olhos captam e decodificam a luz, vamos traçando novas geometrias com novas cores.
E também concordo com o fato de necessitarmos de cuidado e atenção ao decodificar as coisas e não sermos porta-vozes de pessoas com interesses partidários. A não ser que esses interesses nos representem, é claro. E a questão é justamente essa: o que nos representa? E ainda mais: que “nós” é esse ao qual estamos fazendo referência?! O que a bandeira representa já sabemos. Isso, sim, é óbvio! Além das suas cores, suas estrelas também simbolizam cada Estado e cada Estado, a priori, deveria representar toda a sua população. Porém, o que os meus olhos viram e decodificaram, por exemplo, na votação do Impeachment foi uma sequência infindável de representações particulares. Políticos que – por natureza de sua posição – deveriam sustentar uma visão altruísta, sem nenhuma parcimônia numa mise-en-scène circense, dedicaram seus votos às suas famílias e aos seus círculos mais próximos.
O que os meus olhos viram e os meus ouvidos escutaram foi a divulgação de que o Presidente da Câmara possuía uma conta bilionária na Suíça e que julgou a então Presidente que não havia sido indiciada em nada e que foi eleita democraticamente. O que os meus sentidos captaram foi que as “pedaladas fiscais” não se constituíam como crime e que seu uso como argumento era, portanto, ilegítimo; o que tenho captado por agora é que a perigosa interferência (infra?)vermelha nas cores da bandeira do Brasil não é a petista, mas a estadunidense que – segundo o que registraram minhas retinas – já havia grampeado desaforada e ilegalmente ligações da nossa Presidente há pouco tempo e que, segundo o Wikileaks, já havia escalado o nosso atual e temerário presidente como informante!
Enfim, mesmo com todas essas captações visuais e auditivas, confesso, que ainda assim me sinto um pouco cego! Minha esperança é que minha cegueira, ao contrário da de Tirésias, não profetize trágicos augúrios!