2015

Oco
O que sinto é absolutamente oco
e não de um oco anódino
meditativo
é um oco que dói
um oco que corrói a superfície
um oco de barriga vazia
dor continental
da alma
oca


uma dor de caos


Reduzir a existência de um animal à comida é uma barbárie. O corpo humano não prescinde de carne para sobreviver! Estamos em um momento de mutação e a alteração biológica do corpo humano está em pleno processo de metamorfose. Estamos a caminho de um novo nível existencial e para que esse seja efetivado é necessário abrir mão desse hábito incrustado há séculos e visto de modo natural. As relações não são óbvias, pois trata-se de uma perspectiva energética e espiritual, mas não há como dar fim às guerras entre os homens enquanto nos seus pratos ainda permanecer o sangue do abate animal!

 "Los  hambrientos  y  visionarios  son  motivo de  burla  o  considerados  anormales .   Las escasas  almas  que  no  se  pierden  en  el  sueño y  persisten  en  un  oscuro  deseo  de  vida espiritual,  de  saber  y  progreso,  se  lamentan en  medio  del  grosero  canto  del  materialismo. La   noche  espiritual  se  cierne  más  y  más. Las  grises  tinieblas descienden  sobre  las almas  asustadas, y  las superiores, acosadas y debilitadas  por  la   duda  y  el  temor,  eligen algunas  veces  el  oscurecimiento  paulatino  a la  inmediata  y  violenta  caída  en  la oscuridad total." 



Joseph Campbell, em "O Poder do Mito", afirmava que o papel do artista na contemporaneidade é justamente o de substituir o xamã das tribos primitivas. Ou seja, ele deve exercer muito mais do que um papel meramente estético, ele precisa estar a serviço do coletivo, já que é a Fonte Universal a sua matéria-prima. O Artista-xamã é apenas um canal. Nada que cria ou faz a ele pertence no sentido estrito do termo. 
Nesta perspectiva, a Arteterapia precisa servir para buscar justamente esta abertura de canal em cada ser humano, não o tornando necessariamente um xamã, é claro, mas apontando mais do que um caminho para a resolução de um problema específico, um nova perspectiva mais profunda e conectada com a sua própria natureza.   


Finalmente, resolvi utilizar esse blog como um Diário de Bordo cujo destino é um país próximo do Rio Grande do Sul, estado em que nasci. Estou falando do Uruguai, esse país pequeno que me tem fascinado há algum tempo. 
Ainda estou em São Paulo, mas a decisão já está tomada, portanto, tenho realizado algumas investigações e sondagens a respeito do país!
Vou partilhar o que julgar útil, na medida em que o barco for avançando em direção ao litoral do Atlântico!
Boa viagem a todos os viajantes! 





"Toda arte, toda filosofia, pode ser considerada meio de cura e de auxílio a serviço da vida que cresce, que combate: pressupõe sempre sofrimento e sofredores. Mas há duas espécies de sofredores, primeiro os que sofrem de abundância de vida, que querem uma arte dionisíaca e, do mesmo modo, uma visão e compreensão trágicas da vida ― e depois os que sofrem de empobrecimento de vida, que procuram por repouso, quietude, mar liso, redenção de si mesmo pela arte e pelo conhecimento, ou então a embriaguez, o espasmo, o ensurdecimento, o delírio".







A Felicidade não pode ser uma conquista para o futuro. A Felicidade é um estado de espírito de bem-aventurança que está no aqui-e-agora, na única e possível Eternidade. Portanto, cada vez mais é imprescindível o esforço e o direcionamento para a percepção sagrada deste instante em busca da Transcendência.

                                       Para Sarah Elisa

Há quem troque flores,
Há quem troque farpas
Entretanto,
Há dois
que trocam

Sons de Saturno
             







Duas bocas. Imagens na sombra. Quaisquer posições. Duas alturas diferentes. Um losango cor de cáqui no centro do lado direito. Corpos no meio do nada. Uma árvore de cabeça para baixo que nunca aparecerá na cena. Som de mosquitos. Um velho ronca ao fundo. A cena começa, o velho morre.

O ENTREVISTADOR:

 - Nome? (grita)

O ENTREVISTADO:
- (surpreso com o estranho sapato azul calçado pelo entrevistador) Nasci “Valdenir”, chamei-me e chamaram-me durante muito tempo (tosse) de “Dico”. Hoje assino “Valden Fogo”, senhor. (mostra um sorriso incerto, tentando dar força à palavra Fogo)

- Idade? (pouco interessado)

- 37 anos terrestres (olha para o entrevistador, tentando verificar se o termo terrestres foi tido como original ou excêntrico. Ao perceber que o entrevistador não lhe deu crédito, pensa na merda que fez).

Sexo ?
-       (olha agora para o volume no centro das pernas do entrevistador. Sente desejo. Ele é grande e loiro. Magro. Germânico. Pensa em fazer uma gracinha... arrisca)

- Neutro, senhor.

- Como o sabão?!  (debocha descaradamente. A sensação é de constrangimento)

- (silêncio. Dessa vez, ele é quem acha o entrevistador babaca)

- E-mail? (querendo acabar a entrevista)

- valden@gmail.com (diz frio e já querendo ir embora)

- Telefone? (sentindo um fino sentimento de culpa)

- 011982373646 (arrumando a bolsa e pegando o cigarro).

- Para qual função da lista é sua inscrição?

- (ríspido, embora não tenha razão verossímil para sê-lo) Não sei. Não vi lista alguma! Qualquer função está ótimo. (mostra descaso). Se quiserem, posso servir o café. (agora percebe um riso sincero do entrevistador. Não explícito. Mas com cheiro de trégua... Com um pingo de interesse percebido num sorriso torto e quase, quase, quase concupiscente).
Desde que possa assistir aos processos criativos, é claro. (sente uma leve ereção. Também despropositada e sem nenhuma verossimilhança).

- Você é ator/atriz profissional?  (pergunta prolongando as palavras. Tira os sapatos azuis dos pés e os coloca no anzol)

- Não. Nem tenho mais pretensões de sê-lo.  (gesticula com as mãos uma poesia de Drummond) Tentei duas vezes fazer meu drt. (silêncio... música de wim Mertens. Corre até o fundo do palco, saúda o lago e volta. Seus sapatos também são azuis agora). No sated do Paraná e no Sated do Rio Grande do Sul. (som de músculos). No primeiro, meu currículo foi aprovado, mas nunca mais voltei. (volta ao fundo do palco. Suas mãos estão cheias de papel. Joga-os para o alto. Alguns caem na boca do entrevistar. Ele os cospe!) No segundo, meu currículo foi aprovado, paguei as taxas, só precisava ir no Ministério do Trabalho. Acabei me envolvendo com outras coisas e perdi o prazo, senhor. (surgem imagens espectrais projetadas no estômago de uma formiga ao fundo) Daí tinha que fazer tudo de novo... Não tive saco! (olha para o pau do entrevistador. Percebe que é uma vagina. Uma vagina dentada). Como não estava precisando dele mesmo, disse: “Ah, laissez tomber!”

- Você é profissional de outra área artística? (bem protocolar. Olha agora para a formiga que caga ao fundo na imagem. Sente nojo. Interrompe a entrevista ao perceber que ela cria asas... Congela)

- (falando ao som de uma máquina de escrever... ). Olha, senhor, Sou especialista em Arteterapia e Expressões Criativas, pela Faculdade de Ciências da Saúde. Suponho que valha, não é? (num tom acadêmico) Considerando a literatura – e a própria língua – como uma expressão artística, também sou formado em Letras-Português/Francês pela Fundação Universidade de Rio Grande e mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Fiz teatro amador durante muito tempo em Rio Grande-RS, participei de festivais de teatro na época, (diz tentando impressionar, mas com um certo desencanto ao perceber que o entrevistador continua estático), Depois fui para o Paraná fazer Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná, mas frequentei apenas um ano. Mas, enfim... Estou tangenciando a resposta, senhor. Perdoe-me! (o entrevistador continua estático)

- (como se nada tivesse acontecido) Sem problemas! Prosseguindo... Quais são seus últimos trabalhos? (volta como se de um sonho... com uma sensação de ter sido picado pela formiga. Sente uma dor agudinha e crônica. Percebe também que há uma pedra no seu sapato azul esquerdo)

- No âmbito da escrita (imposta a voz. Coluna reta... sente-se em um púlpito), da fotografia, da pintura e da música, alguns registros estão em meu blog www.valfogo.blogspot.com; (sente receio...) Reitero, senhor, não sou profissional...(sente vontade de mijar!) mas é de coração! (sente-se simplório). No âmbito cênico, tenho investigado processos particulares, distantes do público (o que talvez possa descaracterizá-lo como “arte”. Ou não? Acho que não), algumas escritas dramatúrgicas aleatórias (sobe um degrau de uma escadaria que não está lá); no campo da dança, tenho dançado na noite, explorado o meu corpo; dançando com corpos estranhos, trocando energias... (pensa em dizer que o sexo para ele também é dança. Só pensa. Não diz). Tenho dançado com a minha Sombra também! (Resolve revelar). Tenho aprendido alguns bons números (ao fundo, uma das cenas do filme O sétimo selo).
Mas a bem da verdade é a dimensão arteterapêutica tem me mostrado que é impossível dissociar a Arte da Vida e vice-versa, portanto, meu último trabalho é – metalinguisticamente - esse nosso diálogo, Senhor. (som ao fundo de uma máquina de fazer metalinguagem)

- Você canta ou toca algum instrumento?  Sim ou não? Algum material disponível na internet ou coisa que o valha?

- Sim, sim... Eu Canto! Não na noite, não tenho cd´s, não faço show. Mas canto em casa, canto no chuveiro! Não sei por que as pessoas acham tão pejorativo cantar no chuveiro. Acho que os chuveiros são os melhores estúdios... Canto livre, abençoado pela água que jorra no corpo limpa e reenergiza.
(A partir de agora. Não há rubrica. O escritor tem preguiça. O escritor tem sono. Nesse momento a dramaturgia é destruída. Imagens de bibliotecas pegando fogo projetadas dentro de uma usina hidrelétrica).
Em relação ao instrumento, senhor, comprei um violão e tenho inventado algumas sonoridades que me são agradáveis aos ouvidos. É tudo de duas ou três notas... Mas, enfim... não vou me estender muito, Senhor. Percebi que o Senhor está cansado. Então, no meu blog, tenho algumas investigações sonoras, mas são todas “amadoras” (no sentido shopenhaueriano do termo, é claro. Gravo em casa no programa Audacity, portanto “improvisations”, sabe! Pretendo usar em uma performance que já estou realizando. Tenho dançado na praça que fica acima do metrô Jardim São Paulo. Lá há um jardim francês maravilhoso. Gosto de dançar lá à noite, quando não há ninguém... Quando não há público, não há câmeras, não há nada além de um cenário orgásmico e o desejo de fazer a arte pela arte. Ah sim, eis aqui o link para os meus registros sonoros: http://fonoridades.blogspot.com.br/2012/06/pendule.html

- Você dança (a picada da formiga continua a doer).

- Simmmmmmm. Adoro!

- Algum material disponível na internet?

- Não, senhor. Não que eu saiba.

- Você escreve?  

- Sim, escrevo.

- Algum material disponível na internet? (sente agora a dor da pedra do sapato)

- Tá no meu blog que passei há pouco.

- Ok. Você já trabalhou com TV ou Cinema?   (pergunta enquanto toma um comprimido)

- Nãoooooooooooooo. Adoraria! Amo o cinema – embora não seja cinéfilo. Tive uma experiência no cptzinho do Antunes Filho há uns dez anos atrás. Dizem que a linguagem dele é bastante cinematográfica... Não sei se tá valendo... Também nunca trabalhei na TV. Não trabalharia em tv aberta, acho. (Pensa em falar que foi colega do Lee Taylor no cptzinho. Gagueja. Não diz! Acha que não tem nada a ver... Acha simplório. Piegas. Tolinho mesmo)

- Você fala algum outro idioma?   (pensa para si: se ele conhecer o aramaico e o sânscrito ele poderia ter uma chance...)

- Francês. E portunhol, serve? Sou gaúcho, portanto pertenço ilexândia (o território da Ilex Paraguaiense: Uruguai x Argentina x Rio Grande do Sul. Termo utilizado pelo Jorge Drexler no documentário “A linha do frio”, caso queiram conferir.)

- Você assistiu a série de peças Puzzle? Quais? (ao fundo, uma partida de tênis entre Novak Djokovic e Nadal. Ambos estão pelados e de pau duro.)

- Não! Uma amiga foi e falou super bem. Inclusive conversamos sobre isso. Ela fez parte de um processo de vocês que rolou há pouco tempo quando vocês abriram para o público. Ela disse que seria difícil que vocês me aceitassem pelo fato de não ter assistido ao Puzzle. Pensei até em mentir, dar uma lidinha nos artigos e dizer alguma coisa inteligente. Depois bateu a ética! Estou aqui, senhor, me arranjando com o que tenho. Nem sei do que se trata, mas imagino que sejam peças entrecortadas, interativas... Prometo que irei ver, caso ainda esteja em cartaz!

(as rubricas retornam. O entrevistador levanta o braço direto. O entrevistado levanta o esquerdo).

- Algum comentário? (já não está mais em cena).

- Ah, sim, obrigado pela oportunidade, senhor. Sim, sim, gostaria de dizer, embora não creia que isso me beneficiará no processo de seleção.... Mas, enfim, sinceridade é sinceridade, o senhor não concorda? (fala para o Nada que veste Prada) Pois bem, que julguem vocês...! (ao fundo é projetado o Exército de Terracota chinês). Então, assisti ao “Incendiários” no ano 2000 quando trabalhei como receptivo do Festival de Teatro de Curitiba. Achei “uma coisa”! Saí encantado. Nem lembro mais da peça, mas preservo o impacto (surge um morcego na cena. O morcego canta um som gutural). Gostei de tudo: cenário, atuação, som... Depois em 2005, ou 2006 não lembro, assisti à outra peça ali no teatro do Sesi, na Paulista, mas não lembro do nome... Eu curti no começo, mas depois cansei... Espero que isso não ofenda. Não lembro do motivo de não ter gostado, mas fiz uma coisa horrível: saí no meio da peça! Aproveito aqui para pedir desculpas anacronicamente. (Som de palmas. Longos minutos. O som das palmas transformam-se em barulho de chuva).

- Quais são seus livros preferidos? (diz o morcego)

- Ah, sem chance! Missão injusta! É aflitiva essa pergunta. Sei lá? Qual área? Putz, é uma porrada. (o som de chuva transforma-se em som de tiros) Sei que a pergunta é para verificar se há sintonia teórica-estética-etc com vocês, mas não sei... Eu poderia começar a vomitar um monte de títulos aqui como o Lucky (ou o Pozzo, não lembro? É o Lucky mesmo!). (Nesse momento, o espírito de Cacilda Becker se manifesta. Entra no corpo do entrevistado. Saí vai para o entrevistador. Ele sente uma dor de estômago. Som de morcegos voando. Cacilda desincorpora e vai embora. Edith Piaf tenta aproveitar a abertura espiritual e tenta incorporar no corpo do entrevistado. Ele a espanca).

- Quais são seus filmes preferidos? (começa a se masturbar)

- Essa resposta é tão difícil quanto à primeira! (começa a abraçar o entrevistador que não está em cena mais uma vez). Não tenho preferidos e não sou um grande conhecedor, como disse Anteriormente (o Anteriormente surge em uma nuvem. O Anteriormente também calça um sapato azul. Sua voz parece a de Caetano). Aliás, provavelmente, tenha algumas lacunas sérias, pois há muitos clássicos que ainda não vi. Entretanto, descobri que não há como preenchê-las! (voz de uma lacuna dentro da água). Criei o hábito há pouco de intercalar filmes por continentes e tenho feito descobertas surpreendentes. Tenho casualmente assistido a alguns filmes australianos... (A Austrália surge sem calça no palco). Geralmente todos os filmes uruguaios e argentinos me atraem... alguma coisa da europa... bastantes dos Estados Unidos. Vi há pouco um delicioso canadense chamado “Les amours imaginaires”. Revi o iraniano “A maçã” e fiquei impressionadíssimo... Ah, e ontem, senhor, assisti a um filme chamado “La famille Belier”.

(Nesse momento todas as rubricas do texto vão embora mais uma vez). Ele é bem interessante, se me permite essa digressão, senhor. Cheio de clichês, mas ao mesmo tempo com algumas originalidades, digamos assim... É a história de uma família surda que tem uma filha que fala e ainda por cima canta. Inclusive tá rolando uma discussão bem interessante lá na França – super bafond – sobre o fato de os atores que interpretaram os surdos serem pessoas “normais”. Bem boa a discussão, aliás.
Bah, no fim, acabei respondendo a pergunta. Mas só queria terminar, senhor, dizendo que acho o cinema de um potencial soberbo. De certa forma, ele ocupa um lugar, do meu ponto de vista, ritual! (Ah, adoro o Joseph Campbell... Sei que essa resposta é de uma pergunta anterior, mas é que lembrei dessa reverência orgânica só agora... gosto do Jung também, do Mircea Eliade... ah, tem tantos outros tão legais quanto”). Enfim, senhor, voltando à questão dos ritos (que não tem nada a ver com a sua pergunta, aliás, mas enfim... (adoro as digressões e devaneios... Aliás aprendi isso com o Bachelard, para aproveitar o gancho!) Não que o teatro não o seja, aliás ele o é por excelência... (adoro o Grotowsky e o Artaud!). Falo numa perspectiva muito pessoal, pois o cinema tem-me “pego” mais do que as linguagens cênicas. Talvez não tenha assistido às peças “certas”... Quem sabe o puzzle, né, senhor! Acho que sim! Boto mó fé! Há pouco vi um documentário maravilhoso chamado “Uma Odisseia do cinema” que faz uma retrospectiva da história do cinema. É fantástico!

- Chega!

- Perdoe-me, Senhor! Manterei o foco!

- Diga-me quais são seus discos preferidos?

- “gosto da música enquanto fenômeno artístico em sua magnitude”, me parafraseando. Engraçado o senhor falar “discos”... Ninguém usa mais discos... Na verdade, até que está tendo um revival agora, né? A propósito, lembrei que gostei bastante do filme Durval Discos. Muito legal... Tem uns filmes brasileiros muito fodas, né? Gosto do Fernando Meirelles... Acho ele bárbaro. O Salles é legal, embora tenha visto um estadunidense que não achei tão legal... Há pouco que fui finalmente conhecer os filmes do (ou de? Nunca sei!) Recife. Vi a “Febre do Rato” e... o outro que eu gostei mais eu esqueci o título, Senhor. Ah, sim, mas a pergunta era sobre os discos... Ah, não sei... tenho escutado música do mundo inteiro... Vou pesquisando na internet e baixando.. e depois escuto randomicamente... Tenho escutado coisas completamente distintas umas das outras, tipo: canto de candomblé, björk e outros cantores da Islândia além do sigur rós; gosto de clara nunes; tenho reescutado os novos bahianos... daí vaí... musica em língua francesa, inglesa, árabe... Tenho escutado Bonga, um grupo africano... orixás, camille... Ah, se o senhor me permitir, posso fazer que nem o Lucky?

- Pode, fique à vontade.

- Grato, senhor. Então tá, vou vomitar. O senhor conta até três?

- Conto, sim, claro. Você quer de trás para a frente ou da frente para trás?

- Como o senhor quiser.

- Ok, sem problemas. Vai lá: 1... 2... 3...:

- marisa monte, les choristes, orixás, a-ha, the smiths, dead can dance, enigma, camille, chat baker, peter peter, beirut, Céu, Renato Russo, Louis Armstrong, The Hillard Ensemble, Armand Amar, Almôndegas, Rubi, The Knife, Caetano, Gal, Gil, Bethânia, Chico, Chico Cézar, Zeca Baleiro, David Russell, Shakira, David Schombert, Lana Del Rey, Woodkid, Angeline Kidjo, Snow Patrol, Arcade Fire, Angela Hewwig, Chopin, Mercedes Sosa, Diana Krall, A banda mais bonita da cidade, Ná Ozzetti, Cícero, aquela menina que faz o Porta dos Fundos. Um pouco de legião, Angus & Julia Stone e James Blake. Pronto senhor, foi só isso que consegui.

- Ok, prossigamos. Você tem algum material do seu trabalho disponível na internet?

- Não. Tenho só o meu blog. Ah, tenho duas gravações de duas investigações que fiz, será que vale? O senhor veja aí. Uma chamei de “Investigações Filosóficas”. É apenas uma conversa com um amigo que fiz na Usina do Gasômetro, quando morei em Porto Alegre. Estamos conversando sobre alguns preceitos filosóficos da Índia, pois meu amigo era Hare Khrisna na época. Ele é despretensioso... (a gravação, não o amigo!) Tem uma ediçãozinha tentando imitar o “Waking Life” (que amo e vi mil vezes!) e tal... Sem falsa modéstia, eu curto a ideia de serem apenas pés caminhando... Se o senhor ainda estiver com tempo e quiser ver, tá aqui.: https://www.youtube.com/watch?v=U-8LTgvEOmk

- Ah, sim. Olharemos, não se preocupe!

- Ah tá... Então... O outro é uma investigação que fiz com uma amiga que também é diretora, formada pela Federal de Santa Maria quando nos unimos no seu apartamento lá no Copan para investigar. Não chegamos a fazer grandes apresentações, na verdade passamos longe disso. Mas foi um processo ritual. Simbólico... A gente se encontrava, invocava nossos deuses e deuses, ninfos e ninfas e ficávamos dançando, improvisando. Tudo isso, num espaço de dois metros quadrados. Ela morava na ala D, sabe, a parte pequenina do Copan. Era bom... havíamos decidido que não se é preciso de espaços públicos nem de leis de incentivo para se fazer arte. Se tiver é melhor, é claro, o senhor sabe como é ser artista no Brasil (na verdade, não vivo de arte, vivo de dar aulas de francês, corrigir textos, criar questões... Acho que até prefiro... dá mais liberdades...), fazendo exercícios corporais e incorporais... O vídeo se passa no Copan, na praça da República, inclusive no metrô. Estou atuando, embora ache a minha fala do começo ridiculamente canastrona. Aliás, gosto de atuar, mas interesso-me sobremaneira pelo processo de direção... Pensei em fazer psicodrama. Curto o Moreno, mas não o conheço a fundo... mas ainda não estou certo se é a linha que mais me interessa... Aliás, quando acabei a minha especialização, pensei em escrever sobre uma possibilidade de convergência entre a direção teatral e a arteterapia. O pressuposto era de que o diretor inexoravelmente penetra em dimensões profundas da psique de seus atores, o que legitimaria uma supervisão arteterapêutica... Não que acredite que o teatro precise sê-lo, não é isso. Mas acho que o caminho auto-investigativo que ele propõe é inexoravelmente auto-revelador...
Enfim, voltando ao vídeo, senhor, estávamos improvisando mesmo e por acaso, seguindo o fluxo de nossos corpos, acabamos encontrando uma frase da Madame Blavatsky colada na portaria do prédio... É uma releitura do Esperando Godot, de certa forma... Enfim, o vídeo é esse: https://www.youtube.com/watch?v=FUl8FRxNG2I . Senhor? Senhor? O senhor ainda está aí?

- Sim, perdoe-me. Tinha ido ao banheiro. Mas sim, escutei de longe... Vamos analisar os seus dois vídeos no momento oportuno, não se preocupe.

- Não estou preocupado, senhor.

- Muito bem. Faremos uma análise e em breve entraremos em contato. Ah, outra coisa, você tem fotos dos seus trabalhos? Isso é muito importante (as rubricas do texto voltam. Olham para o texto. Sorriem e vão embora).

- Fotos? (surgem fotos de morangos mofados em alguma lugar da cena. Risinhos safadinhos das rubricas) Hummm, não. Só tenho fotos que tirei por aí no http://www.fotossintesesnokx.blogspot.com.br/. Elas não são de mim, do meu corpo, mas são do meu olhar. (Rubricas voltam sérias. Foram mordidas pelos morcegos. Estão raivosas). Mostram o que me agradam... Eu tinha do tempo que fazia teatro, mas ficaram por aí... não escaneei... perdi... mas também não valeria... Já não sou mais o mesmo... outro corpo (grita) ... não piso no palco há tanto tempo, senhor (grita mais uma vez)... Às vezes, chego até a sonhar que estou atuando... (o entrevistador soca as rubricas dramatúrgicas). Seria legal se tivesse imagens oníricas... Será que meus desenhos poderiam substituir as minhas fotos? Estão aqui: http://www.plasticidadesnokx.blogspot.com.br/

- Isso é apenas o Sr. Hirsch que poderia responder. (Imagem do Sr. Hirsch ao fundo: 45, 33 metros x 96,54 cm. Há um furo na imagem, mas as rubricas não sabem aonde)

- Ah, sim, claro. Bom, por via das dúvidas... né. Vá que cole! To seguindo o fluxo! Tentei nesse ano fazer o curso de direção lá na SP Escola de teatro. Fiz entrevista e redação e não me chamaram. Sei lá... acho que o diretor, um tal de Bortoloto, não foi com a minha cara. Sei lá, pode ser implicância até, senhor, vá saber... Ou talvez, tenho cometido o mesmo disparate que estou cometendo aqui...  e me zeraram o texto! Vai saber, né? É tudo tão subjetivo. Mas desconfio desse tal de Bortoloto. (Som de uma cabeça caindo da Guilhotina). Se o seu Hirsch é amigo dele, tô ferrado. É?

- (desconversa) Você tem algum registro dos seus trabalhos no facebook?

- Não. Fiquei um ano sem facebook. Agora é que voltei. Minha página é essa: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008559573737.

- Bom, então  é isso! Entraremos em contato assim que a análise de todos os candidatos for realizadas. Boa sorte!

- Ah tá... E... Senhor...? (hesita diriam as rubricas se estivessem por aqui)

- Diga!

- Você acha que eu tenho alguma chance?

- O entrevistador olha para o entrevistado com ar blasé e diz (sussurra o ponto que está de perucarrococó embaixo do palco),

- O movimento das finanças artísticas sobrepõem o devir sistêmico da realidade. Para que a surpresa do porvir seja administrada pela abundância do caminhar, então não haverá respostas para os puzzles. Da letra D, comeram apenas Maria Madalena e o piar das ostras. Do puzzle A, ficaram apenas as vespas. Se no puzzle C fossem retirados apenas os azuis de todos os sapatos, muitas formigas cagariam flores. Do puzzle B, o começo já havia costurado provérbios. Portanto, não há o que não dizer se o senhor for fiel aos seus soluços. De que adianta Hirschear de incêndios as possibilidades últimas se do tempo só nos restam os morangos mofados? (Sai claudicando por causa da picada da formiga).

- (o entrevistado fica em silêncio. Pensa: “por que o entrevistador não fora tão claro desde o início”. Ele teria pensado melhor nas respostas, teria dito que “o ar das ostras era melhor no verão e que o teatro para ele era como pedra que dissolve no arco-íris.” Já não tinha mais tempo. A entrevista tinha acabado. Pega seus sapatos azuis e sai do palco)

FIM

(as rubricas chegam atrasadas e querem pôr uma lágrima no entrevistado, mas não dá mais tempo)


         

           Há algo tão banal e complexo ao mesmo tempo do que dormir e sonhar!? Entretanto, parece-me que estas duas coisas sejam também as mais difíceis de serem supridas por completo. E julgo que o seu desrespeito é uma das razões pelas quais a sociedade está tão “patologizada” e tão maluca! “Deem ao homem o direito de dormir o quanto ele quer que ele lhe retribuirá em energia e qualidade de trabalho”, este seria um dos meus lemas revolucionários dentre outros nada ortodoxos!
            Será que pelo fato de dormir ser um ação tão natural, não conseguimos perceber o quanto este ato é de suma importância para a sobrevivência?
            Quando penso em uma sociedade ideal, não consigo deixar de vislumbrar um grande templo do sono concebido como algo absolutamente sagrado. Nesta sociedade, um dos “pecados” capitais seria o despertar alguém. Uma outra interdição seria a de julgar o tempo necessário que cada um deve dormir. Sim, porque na sociedade que vivemos, se dormimos muito: ou estamos doentes, ou estamos deprimidos, ou estamos fugindo, ou somos vagabundos mesmo.
            Pois bem, nesta nova sociedade, cada um dormirá no seu tempo, no seu ritmo, ao seu bel-prazer, seja por cansaço físico, seja por escapismo, seja por algum distúrbio em vias de cura (sim, porque nesta sociedade o “bem dormir” será a cura para muitos males!). Se por ventura acordares alguém, terás como punição algumas horas sem dormir!



  Bons son(h)os!