Duas bocas. Imagens na sombra. Quaisquer
posições. Duas alturas diferentes. Um losango cor de cáqui no centro do lado
direito. Corpos no meio do nada. Uma árvore de cabeça para baixo que nunca
aparecerá na cena. Som de mosquitos. Um velho ronca ao fundo. A cena começa, o
velho morre.
O ENTREVISTADOR:
- Nome? (grita)
O ENTREVISTADO:
- (surpreso com o estranho sapato azul calçado pelo entrevistador) Nasci
“Valdenir”, chamei-me e chamaram-me durante muito tempo (tosse) de “Dico”. Hoje assino
“Valden Fogo”, senhor. (mostra um sorriso
incerto, tentando dar força à palavra Fogo)
- Idade? (pouco
interessado)
- 37 anos terrestres (olha para o entrevistador, tentando
verificar se o termo terrestres foi tido como original ou excêntrico. Ao
perceber que o entrevistador não lhe deu crédito, pensa na merda que fez).
- Sexo ?
-
(olha agora para o volume no centro das
pernas do entrevistador. Sente desejo. Ele é grande e loiro. Magro. Germânico.
Pensa em fazer uma gracinha... arrisca)
- Neutro, senhor.
- Como o sabão?!
(debocha descaradamente. A
sensação é de constrangimento)
- (silêncio. Dessa vez, ele é quem acha o entrevistador babaca)
- E-mail? (querendo
acabar a entrevista)
- Telefone? (sentindo
um fino sentimento de culpa)
- 011982373646 (arrumando a bolsa e pegando o cigarro).
- Para qual função da lista é sua inscrição?
- (ríspido, embora não tenha razão verossímil para sê-lo) Não sei. Não
vi lista alguma! Qualquer função está ótimo. (mostra descaso). Se quiserem, posso servir o café. (agora percebe um riso sincero do
entrevistador. Não explícito. Mas com cheiro de trégua... Com um pingo de
interesse percebido num sorriso torto e quase, quase, quase concupiscente).
Desde que possa
assistir aos processos criativos, é claro. (sente
uma leve ereção. Também despropositada e sem nenhuma verossimilhança).
- Você é ator/atriz profissional? (pergunta prolongando as palavras. Tira os sapatos
azuis dos pés e os coloca no anzol)
- Não. Nem tenho mais
pretensões de sê-lo. (gesticula com as mãos uma poesia de Drummond)
Tentei duas vezes fazer meu drt. (silêncio...
música de wim Mertens. Corre até o fundo do palco, saúda o lago e volta. Seus
sapatos também são azuis agora). No sated do Paraná e no Sated do Rio
Grande do Sul. (som de músculos). No
primeiro, meu currículo foi aprovado, mas nunca mais voltei. (volta ao fundo do palco. Suas mãos estão
cheias de papel. Joga-os para o alto. Alguns caem na boca do entrevistar. Ele
os cospe!) No segundo, meu currículo foi aprovado, paguei as taxas, só
precisava ir no Ministério do Trabalho. Acabei me envolvendo com outras coisas
e perdi o prazo, senhor. (surgem imagens
espectrais projetadas no estômago de uma formiga ao fundo) Daí tinha que
fazer tudo de novo... Não tive saco! (olha
para o pau do entrevistador. Percebe que é uma vagina. Uma vagina dentada).
Como não estava precisando dele mesmo, disse: “Ah, laissez tomber!”
- Você é profissional de outra área artística? (bem protocolar. Olha agora para a formiga
que caga ao fundo na imagem. Sente nojo. Interrompe a entrevista ao perceber
que ela cria asas... Congela)
- (falando ao som de uma máquina de escrever... ). Olha, senhor, Sou
especialista em Arteterapia e Expressões Criativas, pela Faculdade de Ciências
da Saúde. Suponho que valha, não é? (num
tom acadêmico) Considerando a literatura – e a própria língua – como uma
expressão artística, também sou formado em Letras-Português/Francês pela
Fundação Universidade de Rio Grande e mestre em Letras pela Universidade
Federal do Paraná. Fiz teatro amador durante muito tempo em Rio Grande-RS, participei
de festivais de teatro na época, (diz
tentando impressionar, mas com um certo desencanto ao perceber que o
entrevistador continua estático), Depois fui para o Paraná fazer Artes
Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná, mas frequentei apenas um ano. Mas,
enfim... Estou tangenciando a resposta, senhor. Perdoe-me! (o entrevistador continua estático)
- (como se nada
tivesse acontecido) Sem problemas! Prosseguindo... Quais são seus últimos
trabalhos? (volta como se de um sonho... com uma sensação de ter sido picado
pela formiga. Sente uma dor agudinha e crônica. Percebe também que há uma pedra
no seu sapato azul esquerdo)
- No âmbito da escrita
(imposta a voz. Coluna reta... sente-se em um púlpito), da fotografia, da
pintura e da música, alguns registros estão em meu blog www.valfogo.blogspot.com; (sente
receio...) Reitero, senhor, não sou profissional...(sente vontade de mijar!) mas é de coração! (sente-se simplório). No âmbito cênico, tenho investigado processos
particulares, distantes do público (o que talvez possa descaracterizá-lo como
“arte”. Ou não? Acho que não), algumas escritas dramatúrgicas aleatórias (sobe um degrau de uma escadaria que não está
lá); no campo da dança, tenho dançado na noite, explorado o meu corpo;
dançando com corpos estranhos, trocando energias... (pensa em dizer que o sexo para ele também é dança. Só pensa. Não diz).
Tenho dançado com a minha Sombra também! (Resolve revelar). Tenho aprendido
alguns bons números (ao fundo, uma das
cenas do filme O sétimo selo).
Mas a bem da verdade é a
dimensão arteterapêutica tem me mostrado que é impossível dissociar a Arte da
Vida e vice-versa, portanto, meu último trabalho é – metalinguisticamente -
esse nosso diálogo, Senhor. (som ao fundo
de uma máquina de fazer metalinguagem)
- Você canta ou toca algum instrumento? Sim ou não? Algum material disponível na
internet ou coisa que o valha?
- Sim, sim... Eu Canto!
Não na noite, não tenho cd´s, não faço show. Mas canto em casa, canto no
chuveiro! Não sei por que as pessoas acham tão pejorativo cantar no chuveiro.
Acho que os chuveiros são os melhores estúdios... Canto livre, abençoado pela
água que jorra no corpo limpa e reenergiza.
(A partir de agora. Não há rubrica. O escritor tem preguiça. O escritor
tem sono. Nesse momento a dramaturgia é destruída. Imagens de bibliotecas
pegando fogo projetadas dentro de uma usina hidrelétrica).
Em relação ao
instrumento, senhor, comprei um violão e tenho inventado algumas sonoridades que
me são agradáveis aos ouvidos. É tudo de duas ou três notas... Mas, enfim...
não vou me estender muito, Senhor. Percebi que o Senhor está cansado. Então, no
meu blog, tenho algumas investigações sonoras, mas são todas “amadoras” (no
sentido shopenhaueriano do termo, é claro. Gravo em casa no programa Audacity,
portanto “improvisations”, sabe! Pretendo usar em uma performance que já estou
realizando. Tenho dançado na praça que fica acima do metrô Jardim São Paulo. Lá
há um jardim francês maravilhoso. Gosto de dançar lá à noite, quando não há
ninguém... Quando não há público, não há câmeras, não há nada além de um
cenário orgásmico e o desejo de fazer a arte pela arte. Ah sim, eis aqui o link
para os meus registros sonoros: http://fonoridades.blogspot.com.br/2012/06/pendule.html
- Você dança (a
picada da formiga continua a doer).
- Simmmmmmm. Adoro!
- Algum material disponível na internet?
- Não, senhor. Não que
eu saiba.
- Você escreve?
- Sim, escrevo.
- Algum material disponível na internet? (sente agora a dor da pedra do sapato)
- Tá no meu blog que
passei há pouco.
- Ok. Você já trabalhou com TV ou Cinema? (pergunta
enquanto toma um comprimido)
- Nãoooooooooooooo.
Adoraria! Amo o cinema – embora não seja cinéfilo. Tive uma experiência no
cptzinho do Antunes Filho há uns dez anos atrás. Dizem que a linguagem dele é
bastante cinematográfica... Não sei se tá valendo... Também nunca trabalhei na
TV. Não trabalharia em tv aberta, acho. (Pensa
em falar que foi colega do Lee Taylor no cptzinho. Gagueja. Não diz! Acha que
não tem nada a ver... Acha simplório. Piegas. Tolinho mesmo)
- Você fala algum outro idioma? (pensa
para si: se ele conhecer o aramaico e o sânscrito ele poderia ter uma
chance...)
- Francês. E portunhol,
serve? Sou gaúcho, portanto pertenço ilexândia (o território da Ilex Paraguaiense: Uruguai x Argentina x Rio Grande do
Sul. Termo utilizado pelo Jorge Drexler no documentário “A linha do
frio”, caso queiram conferir.)
- Você assistiu a série de peças Puzzle? Quais? (ao fundo, uma partida de tênis entre Novak
Djokovic e Nadal. Ambos estão pelados e de pau duro.)
- Não! Uma amiga foi e
falou super bem. Inclusive conversamos sobre isso. Ela fez parte de um processo
de vocês que rolou há pouco tempo quando vocês abriram para o público. Ela
disse que seria difícil que vocês me aceitassem pelo fato de não ter assistido
ao Puzzle. Pensei até em mentir, dar uma lidinha nos artigos e dizer alguma
coisa inteligente. Depois bateu a ética! Estou aqui, senhor, me arranjando com
o que tenho. Nem sei do que se trata, mas imagino que sejam peças
entrecortadas, interativas... Prometo que irei ver, caso ainda esteja em
cartaz!
(as rubricas retornam. O entrevistador levanta o braço direto. O
entrevistado levanta o esquerdo).
- Algum comentário? (já não está mais em cena).
- Ah, sim, obrigado
pela oportunidade, senhor. Sim, sim, gostaria de dizer, embora não creia que
isso me beneficiará no processo de seleção.... Mas, enfim, sinceridade é
sinceridade, o senhor não concorda? (fala
para o Nada que veste Prada) Pois
bem, que julguem vocês...! (ao fundo é
projetado o Exército de Terracota chinês). Então, assisti ao “Incendiários”
no ano 2000 quando trabalhei como receptivo do Festival de Teatro de Curitiba.
Achei “uma coisa”! Saí encantado. Nem lembro mais da peça, mas preservo o
impacto (surge um morcego na cena. O
morcego canta um som gutural). Gostei de tudo: cenário, atuação, som... Depois
em 2005, ou 2006 não lembro, assisti à outra peça ali no teatro do Sesi, na
Paulista, mas não lembro do nome... Eu curti no começo, mas depois cansei...
Espero que isso não ofenda. Não lembro do motivo de não ter gostado, mas fiz
uma coisa horrível: saí no meio da peça! Aproveito aqui para pedir desculpas
anacronicamente. (Som de palmas. Longos
minutos. O som das palmas transformam-se em barulho de chuva).
- Quais são seus livros preferidos? (diz o morcego)
- Ah, sem chance! Missão
injusta! É aflitiva essa pergunta. Sei lá? Qual área? Putz, é uma porrada. (o som de chuva transforma-se em som de tiros)
Sei que a pergunta é para verificar se há sintonia teórica-estética-etc com
vocês, mas não sei... Eu poderia começar a vomitar um monte de títulos aqui
como o Lucky (ou o Pozzo, não lembro? É o Lucky mesmo!). (Nesse momento, o espírito de Cacilda Becker se manifesta. Entra no
corpo do entrevistado. Saí vai para o entrevistador. Ele sente uma dor de
estômago. Som de morcegos voando. Cacilda desincorpora e vai embora. Edith Piaf
tenta aproveitar a abertura espiritual e tenta incorporar no corpo do
entrevistado. Ele a espanca).
- Quais são seus filmes preferidos? (começa a se
masturbar)
- Essa resposta é tão
difícil quanto à primeira! (começa a
abraçar o entrevistador que não está em cena mais uma vez). Não tenho
preferidos e não sou um grande conhecedor, como disse Anteriormente (o Anteriormente surge em uma nuvem. O
Anteriormente também calça um sapato azul. Sua voz parece a de Caetano).
Aliás, provavelmente, tenha algumas lacunas sérias, pois há muitos clássicos
que ainda não vi. Entretanto, descobri que não há como preenchê-las! (voz de uma lacuna dentro da água). Criei
o hábito há pouco de intercalar filmes por continentes e tenho feito
descobertas surpreendentes. Tenho casualmente assistido a alguns filmes
australianos... (A Austrália surge sem
calça no palco). Geralmente todos os filmes uruguaios e argentinos me
atraem... alguma coisa da europa... bastantes dos Estados Unidos. Vi há pouco
um delicioso canadense chamado “Les amours imaginaires”. Revi o iraniano “A
maçã” e fiquei impressionadíssimo... Ah, e ontem, senhor, assisti a um filme
chamado “La famille Belier”.
(Nesse momento todas as rubricas do texto vão embora mais uma vez). Ele
é bem interessante, se me permite essa digressão, senhor. Cheio de clichês, mas
ao mesmo tempo com algumas originalidades, digamos assim... É a história de uma
família surda que tem uma filha que fala e ainda por cima canta. Inclusive tá
rolando uma discussão bem interessante lá na França – super bafond – sobre o
fato de os atores que interpretaram os surdos serem pessoas “normais”. Bem boa
a discussão, aliás.
Bah, no fim, acabei
respondendo a pergunta. Mas só queria terminar, senhor, dizendo que acho o
cinema de um potencial soberbo. De certa forma, ele ocupa um lugar, do meu
ponto de vista, ritual! (Ah, adoro o Joseph Campbell... Sei que essa resposta é
de uma pergunta anterior, mas é que lembrei dessa reverência orgânica só
agora... gosto do Jung também, do Mircea Eliade... ah, tem tantos outros tão
legais quanto”). Enfim, senhor, voltando à questão dos ritos (que não tem nada
a ver com a sua pergunta, aliás, mas enfim... (adoro as digressões e
devaneios... Aliás aprendi isso com o Bachelard, para aproveitar o gancho!) Não
que o teatro não o seja, aliás ele o é por excelência... (adoro o Grotowsky e o
Artaud!). Falo numa perspectiva muito pessoal, pois o cinema tem-me “pego” mais
do que as linguagens cênicas. Talvez não tenha assistido às peças “certas”... Quem
sabe o puzzle, né, senhor! Acho que sim! Boto mó fé! Há pouco vi um
documentário maravilhoso chamado “Uma Odisseia do cinema” que faz uma
retrospectiva da história do cinema. É fantástico!
- Chega!
- Perdoe-me, Senhor!
Manterei o foco!
- Diga-me
quais
são seus discos preferidos?
- “gosto da música
enquanto fenômeno artístico em sua magnitude”, me parafraseando. Engraçado o
senhor falar “discos”... Ninguém usa mais discos... Na verdade, até que está
tendo um revival agora, né? A propósito, lembrei que gostei bastante do filme
Durval Discos. Muito legal... Tem uns filmes brasileiros muito fodas, né? Gosto
do Fernando Meirelles... Acho ele bárbaro. O Salles é legal, embora tenha visto
um estadunidense que não achei tão legal... Há pouco que fui finalmente
conhecer os filmes do (ou de? Nunca sei!) Recife. Vi a “Febre do Rato” e... o
outro que eu gostei mais eu esqueci o título, Senhor. Ah, sim, mas a pergunta
era sobre os discos... Ah, não sei... tenho escutado música do mundo inteiro...
Vou pesquisando na internet e baixando.. e depois escuto randomicamente...
Tenho escutado coisas completamente distintas umas das outras, tipo: canto de
candomblé, björk e outros cantores da Islândia além do sigur rós; gosto de
clara nunes; tenho reescutado os novos bahianos... daí vaí... musica em língua
francesa, inglesa, árabe... Tenho escutado Bonga, um grupo africano... orixás,
camille... Ah, se o senhor me permitir, posso fazer que nem o Lucky?
- Pode, fique à vontade.
- Grato, senhor. Então
tá, vou vomitar. O senhor conta até três?
- Conto, sim, claro. Você quer de trás para a frente ou
da frente para trás?
- Como o senhor quiser.
- Ok, sem problemas. Vai lá: 1... 2... 3...:
- marisa monte, les
choristes, orixás, a-ha, the smiths, dead can dance, enigma, camille, chat
baker, peter peter, beirut, Céu, Renato Russo, Louis Armstrong, The Hillard
Ensemble, Armand Amar, Almôndegas, Rubi, The Knife, Caetano, Gal, Gil,
Bethânia, Chico, Chico Cézar, Zeca Baleiro, David Russell, Shakira, David
Schombert, Lana Del Rey, Woodkid, Angeline Kidjo, Snow Patrol, Arcade Fire,
Angela Hewwig, Chopin, Mercedes Sosa, Diana Krall, A banda mais bonita da
cidade, Ná Ozzetti, Cícero, aquela menina que faz o Porta dos Fundos. Um pouco
de legião, Angus & Julia Stone e James Blake. Pronto senhor, foi só isso
que consegui.
- Ok, prossigamos. Você tem algum material do seu
trabalho disponível na internet?
- Não. Tenho só o meu
blog. Ah, tenho duas gravações de duas investigações que fiz, será que vale? O
senhor veja aí. Uma chamei de “Investigações Filosóficas”. É apenas uma
conversa com um amigo que fiz na Usina do Gasômetro, quando morei em Porto
Alegre. Estamos conversando sobre alguns preceitos filosóficos da Índia, pois
meu amigo era Hare Khrisna na época. Ele é despretensioso... (a gravação, não o
amigo!) Tem uma ediçãozinha tentando imitar o “Waking Life” (que amo e vi mil
vezes!) e tal... Sem falsa modéstia, eu curto a ideia de serem apenas pés
caminhando... Se o senhor ainda estiver com tempo e quiser ver, tá aqui.: https://www.youtube.com/watch?v=U-8LTgvEOmk
- Ah, sim. Olharemos, não se preocupe!
- Ah tá... Então... O
outro é uma investigação que fiz com uma amiga que também é diretora, formada
pela Federal de Santa Maria quando nos unimos no seu apartamento lá no Copan
para investigar. Não chegamos a fazer grandes apresentações, na verdade
passamos longe disso. Mas foi um processo ritual. Simbólico... A gente se
encontrava, invocava nossos deuses e deuses, ninfos e ninfas e ficávamos
dançando, improvisando. Tudo isso, num espaço de dois metros quadrados. Ela
morava na ala D, sabe, a parte pequenina do Copan. Era bom... havíamos decidido
que não se é preciso de espaços públicos nem de leis de incentivo para se fazer
arte. Se tiver é melhor, é claro, o senhor sabe como é ser artista no Brasil
(na verdade, não vivo de arte, vivo de dar aulas de francês, corrigir textos, criar
questões... Acho que até prefiro... dá mais liberdades...), fazendo exercícios
corporais e incorporais... O vídeo se passa no Copan, na praça da República,
inclusive no metrô. Estou atuando, embora ache a minha fala do começo
ridiculamente canastrona. Aliás, gosto de atuar, mas interesso-me sobremaneira
pelo processo de direção... Pensei em fazer psicodrama. Curto o Moreno, mas não
o conheço a fundo... mas ainda não estou certo se é a linha que mais me
interessa... Aliás, quando acabei a minha especialização, pensei em escrever
sobre uma possibilidade de convergência entre a direção teatral e a
arteterapia. O pressuposto era de que o diretor inexoravelmente penetra em
dimensões profundas da psique de seus atores, o que legitimaria uma supervisão
arteterapêutica... Não que acredite que o teatro precise sê-lo, não é isso. Mas
acho que o caminho auto-investigativo que ele propõe é inexoravelmente
auto-revelador...
Enfim, voltando ao
vídeo, senhor, estávamos improvisando mesmo e por acaso, seguindo o fluxo de
nossos corpos, acabamos encontrando uma frase da Madame Blavatsky colada na
portaria do prédio... É uma releitura do Esperando Godot, de certa forma...
Enfim, o vídeo é esse: https://www.youtube.com/watch?v=FUl8FRxNG2I
. Senhor? Senhor? O senhor ainda está aí?
- Sim, perdoe-me. Tinha ido ao banheiro. Mas sim,
escutei de longe... Vamos analisar os seus dois vídeos no momento oportuno, não
se preocupe.
- Não estou preocupado,
senhor.
- Muito bem. Faremos uma análise e em breve entraremos
em contato. Ah, outra coisa, você tem fotos dos seus trabalhos? Isso é muito
importante (as rubricas do texto voltam.
Olham para o texto. Sorriem e vão embora).
- Fotos? (surgem fotos de morangos mofados em alguma
lugar da cena. Risinhos safadinhos das rubricas) Hummm, não. Só tenho fotos
que tirei por aí no http://www.fotossintesesnokx.blogspot.com.br/. Elas não são de mim, do meu corpo, mas são do meu
olhar. (Rubricas voltam sérias. Foram
mordidas pelos morcegos. Estão raivosas). Mostram o que me agradam... Eu
tinha do tempo que fazia teatro, mas ficaram por aí... não escaneei... perdi...
mas também não valeria... Já não sou mais o mesmo... outro corpo (grita) ... não piso no palco há tanto
tempo, senhor (grita mais uma vez)...
Às vezes, chego até a sonhar que estou atuando... (o entrevistador soca as rubricas dramatúrgicas). Seria legal se
tivesse imagens oníricas... Será que meus desenhos poderiam substituir as
minhas fotos? Estão aqui: http://www.plasticidadesnokx.blogspot.com.br/
- Isso é apenas o Sr. Hirsch que poderia responder. (Imagem do Sr. Hirsch ao fundo: 45, 33 metros
x 96,54 cm. Há um furo na imagem, mas as rubricas não sabem aonde)
- Ah, sim, claro. Bom,
por via das dúvidas... né. Vá que cole! To seguindo o fluxo! Tentei nesse ano
fazer o curso de direção lá na SP Escola de teatro. Fiz entrevista e redação e
não me chamaram. Sei lá... acho que o diretor, um tal de Bortoloto, não foi com
a minha cara. Sei lá, pode ser implicância até, senhor, vá saber... Ou talvez,
tenho cometido o mesmo disparate que estou cometendo aqui... e me zeraram o texto! Vai saber, né? É tudo
tão subjetivo. Mas desconfio desse tal de Bortoloto. (Som de uma cabeça caindo da Guilhotina). Se o seu Hirsch é amigo
dele, tô ferrado. É?
- (desconversa)
Você tem algum registro dos seus trabalhos no facebook?
- Não. Fiquei um ano
sem facebook. Agora é que voltei. Minha página é essa: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008559573737.
- Bom, então é
isso! Entraremos em contato assim que a análise de todos os candidatos for
realizadas. Boa sorte!
- Ah tá... E...
Senhor...? (hesita diriam as rubricas se
estivessem por aqui)
- Diga!
- Você acha que eu
tenho alguma chance?
- O entrevistador
olha para o entrevistado com ar blasé e diz (sussurra o ponto que está de
perucarrococó embaixo do palco),
- O movimento das finanças artísticas sobrepõem o devir sistêmico da
realidade. Para que a surpresa do porvir seja administrada pela abundância do
caminhar, então não haverá respostas para os puzzles. Da letra D, comeram
apenas Maria Madalena e o piar das ostras. Do puzzle A, ficaram apenas as
vespas. Se no puzzle C fossem retirados apenas os azuis de todos os sapatos,
muitas formigas cagariam flores. Do puzzle B, o começo já havia costurado
provérbios. Portanto, não há o que não dizer se o senhor for fiel aos seus
soluços. De que adianta Hirschear de incêndios as possibilidades últimas se do
tempo só nos restam os morangos mofados? (Sai
claudicando por causa da picada da formiga).
- (o entrevistado fica em silêncio. Pensa: “por que o entrevistador não
fora tão claro desde o início”. Ele teria pensado melhor nas respostas, teria
dito que “o ar das ostras era melhor no verão e que o teatro para ele era como
pedra que dissolve no arco-íris.” Já não tinha mais tempo. A entrevista tinha
acabado. Pega seus sapatos azuis e sai do palco)
FIM
(as rubricas chegam atrasadas e querem pôr uma lágrima no entrevistado,
mas não dá mais tempo)